sexta-feira, 26 de agosto de 2016

Parte 3 - No Jalapão

O Jalapão
    A tempestade monstruosa, que chegou com ventania de destelhar casas, trovões que tremiam as paredes, só latiu. Uma garoa fina caiu a noite toda. Se eu acreditasse, diria ser um sinal.
    Saí do hotel e passei em uma borracharia, mas ai me informaram que devido a uma ponte quebrada, não era possível entrar no Jalapão pela estrada que eu queria e que eu deveria ir mais alguns quilômetros no asfalto antes de subir sentido Ponte Alta.
     Existe outro fato sobre o Tocantins que me marcou bastante. Não existem placas de transito lá... nem limite de velocidade, nem proibido ultrapassar, nem indicações de cidade... nada! Eu vinha viajando “offline”, evitando uso de GPS e celular. E isso me custou uns bons quilômetros pois quando percebi já havia passado a entrada há tempos.
     Parei em uma charmosinha cidade, Chapada da Natividade, onde consegui trocar os pneus e iniciar, finalmente, nas estradas de terra. E o borracheiro era natural de onde moro em São Paulo! Mundo pequeno esse.
     Bastaram alguns quilometros na terra para me convencer de que foi uma excelente ideia ter levado os pneus de trilha. A estrada era lisa e larga, dá uma falsa sensação de segurança, e quando a mão tá no fundo, aparece alguma surpresa, que sem aderencia na frente ou tração na traseira, seriam vários tombos.
     Passei pela cidade de Pindorama e, logo na saída avisto uma das coisas mais fantásticas que já vi a olho nú.
    Um vulto no barranco, indo em direção a estrada. “Cachorro burro”, pensei. “Vou acabar te atropelando”. Fui freando, freando e quando estava quase parado, consegui ver com mais detalhes, os pelos dourados com manchas pretas. Era pequeno. Um filhote. De Onça! Lindo! Cheguei a tentar sacar a câmera, mas o subconsciente me lembrou que a mãe deveria estar por perto e eu desisti e fui logo embora dali. Durante todo o passeio no jalapão, era constante o avistamento de sinais de onças na área. Foi isso, inclusive, que me fez não acampar selvagem lá.
    Alguns quilômetros à frente, à direita, estava a estrada que eu deveria ter vindo de Dianápolis. Entrei e rodei alguns quilômetros, sem ver nada muito interessante, e voltei.
Em Ponte Alta cheguei cedo, pouco depois do meio dia, fui comer pela primeira vez “comida de verdade” num restaurante e já dei entrada na pousada, confortável e com uma staff muito gente boa,  Pousada Beira Rio, breço de brima R$50.
     A staff me animou, explicando as atrações da estrada que perdi e me convenceu a voltar lá pra ver nesse mesmo dia. Com a moto descarregada, me sentia “O” piloto de rali. Mas nem deu tempo de chegar na terra... do asfalto, tive outra imagem que ficou na minha mente. Ali é tudo muito plano, e a visibilidade é enorme. A gente se sente pequeno. Se sente insignificante perto do monstro de tempestade que engolia o deserto, a estrada e o solitário carro lá na frente. As primeiras gotas me atingiram. Foi o tempo de virar a moto e voltar, até a cidade, com a tempestade me perseguindo e me alcançando assim que entrei no quarto.
    Botei a leitura em dia (Paratii – entre dois polos, do Amyr Klink). Descansei. Amanhã vou brincar na terra.
    Bagagem no quarto, pneus cravudos, almoço no alforge e ferramentas no outro. Hoje o dia vai ser bom! Voltei para conhecer a estrada que deixei de passar ontem.
    Resolvi parar primeiro na famosa pedra furada, uma das primeiras atrações e das mais famosas do Jalapão. Sai da estrada principal, de terra batida, e entrei no areião que leva a pedra. A visão é linda, guardada as devidas proporções, parece uma Champs Elisées selvagem, uma reta de seis quilômetros e o arco no fundo.
    Por algum motivo que ainda não consegui entender, algum lapso de razão, achei que seria mais fácil se eu fosse por uma outra estradinha à esquerda da principal. Fui seguindo, num areial enorme e fofo, onde a moto em qualquer reduzida de velocidade entrava na areia até o eixo. Haja braço, embreagem e pneu pra tirar dali a cada tantos metros. Me entreti tanto que quando vi já havia rodado vários quilômetros e só aí percebi que teria que voltar tudo pois não sairia no mesmo lugar.
    Algum sofrimento depois retorno a principal, lá no começo. A areia da principal é bem mais batida. Chego rapidamente ao arco, sem inventar moda dessa vez. Era eu e as araras que vivem nas suas paredes. O barulho chega a ser ensurdecedor.
    Ando pela área, tiro algumas fotos, e quando volto, perto da moto, gotas de sangue no chão e patas de onça. Não sei (e não quero saber) se já estavam lá ou se apareceram depois, mas meti o pé dali rapido! De volta na principal, várias pegadas de onça nas laterais.
    Botei Matanza no fone de ouvido e acelerei, mais cem quilômetros, até a cachoeira da Fumaça, bem ao lado da tal ponte quebrada que disseram que eu não passaria. Tudo bem, dava pra passar, mas assim foi mais seguro. Deixei a moto, atravessei a ponte e segui pra parte baixa da cachoeira, até encontrar com Javalis no meio da trilha. Como sei que são territoriais e perigosos, voltei e fui para a parte alta, num mirante.
    Cachoeira linda, exuberante. Uma das mais belas que já vi. Um ar selvagem envolve ela, parece intocada há muito tempo. Admirei a queda por algum tempo, voltei até a moto e perto dela um lugar propício a banho nas águas quentes e transparentes que cairiam alguns metros pra depois.
    Na hora do almoço, comecei o retorno. Parei no rio Soninho, onde havia um lugar já pronto e propício para fazer o primeiro almoço no mato da viagem. Fervi água numa fogueirinha para fazer o CupNoodles e fiquei lá curtindo por um bom tempo a paz de se estar no deserto. Fiquei imaginando montar a barraca ali. Na minha mente vinha tudo que vivi nesses ultimos dias. Tinha muita coisa pra descer ainda.
    Segui meu rumo, retornando para a cidade. Cheguei cedo e resolvi adiantar a atração mais próxima para o dia seguinte render mais. Então segui até o sensacional Canyon/Cachoeira do Sussuapara, um dos lugares mais belos, uma das melhores sensações que eu já tive, é muito difícil descrever, uma paz enorme que reina ali, uma pureza no ar. Sentei em uma pedra e fiquei ali meditando e absorvendo o ambiente. Meus olhos merejavam. É a emoção de realizar um sonho, eu acho.
    Quando vi estava começando a escurecer já, e era hora de voltar. Por um descuido uma das minha cotoveleiras se perdeu na volta, tentei achar, mas acho que ela resolveu ficar por lá mesmo. Jantei comida de verdade na pousada, e amanhã sigo para Mateiros.
    Até o despertador foi natural – o papagaio da pousada. Seriam duzentos e poucos quilômetros até Mateiros, com uma paradinha na Cachoeira da Velha no meio do caminho.
    Mas o dia começou complicado. Eu tinha certeza de que tinha uns R$70 no bolso, então resolvi sacar mais um pouco pra me garantir em Mateiros. Só que só existe um caixa do Bradesco em Ponte Alta, e, perceba a data, era quinto dia útil e não tinha nenhuma nota nele. Bom, pensei, R$70 paga pelo menos uma diária de pousada ou acampo no meio do mato mesmo e uso o dinheiro pra garantir a gasolina.
    Saí de Ponte Alta, levando dois litros extras de gasolina numa garrafa pet, e segui a estrada, até a entrada do Canyon Sussuapara procurava pela cotoveleira fugitiva do dia anterior, mas nem sinal. Acelerei. Havia chovido bem durante a noite e o solo estava compactado. Céu nublado e temperatura no ponto, um dia perfeito pra pilotagem. Quando mais adentrava o deserto, maior a sensação de paz. A moto como sempre impecável e a estrada permitindo um ritmo excelente.
     Os primeiros areiões assutaram mas passei os mesmos sem problemas. Já tinha pego o jeito.
     Peguei a entrada pra cachoeira da velha, e ao chegar à entrada da fazenda onde ela fica, o primeiro susto: O caseiro me pediu uma ajuda financeira, “voluntária”. Abri a carteira. Nada.
     Roda os bolsos, bolsa, bagagem. Nada.
     A cabeça foi a milhão. O caseiro me deixou entrar e fui ver a cachoeira. Não consegui curtir... não sei se a cachoeira não era como eu imaginava, ou se era a luz, ou se era eu mesmo preocupado, mas não consegui curtir. Tirei algumas fotos e voltei.
    De volta à sede da fazenda, vejo um Uno (!) e um cara perto. Mais um pra lista de nomes estranhos: Gunar, dono de um hostel em Alto Paraíso, onde eu ainda pretendia voltar nessa viagem. Ele estava faznedo o jalapão no sentido contrário ao meu. Conversando ele me tranquilizou, havia como sacar dinheiro em Mateiros! E havia gasolina! Até o céu abriu e ficou azul depois dessa. Ele me perguntou como era a estrada pra Ponte Alta. “Tem alguns areioes” Eu disse, “Não deve ser fácil de uno”.
     Rá! Se soubesse como era o trecho até mateiros, tinha ficado quieto.
     Volto à Bifurcação para seguir em direção a Mateiros, e pego o primeiro areial de verdade. Alguns quilômetros. Mas saio ileso. No próximo, só deu tempo de ver algo voando por cima do capacete. Era o farol de milha, o suporte desistiu da viagem. Guardei no alforge e segui.
     Eu agradecia aos pneus a cada areiao. Não fosse eles, muitas negociações teriam se concretizado em compras de terreno no deserto.
     Chego ao Rio Novo e à entrada oficial ao Parna Jalapão. Aqui aparece um novo integrante na brincadeira: lama. Eu estava com sangue nos olhos, me sentia o André Azevedo.
     Pode vir jalapão, é só isso? Tacalepau!
     Cheguei na entrada das dunas, já na parte da tarde. Contribuição “voluntária”, que não fiz novamente por não ter um puto no bolso, o guarda abre a corrente e tã-dã, atolado até o eixo. Nem se mexia a moto.
     Olha, eu nunca paguei tanto pau em uma estrada na minha vida. Já tive situações piores por outros fatores, mas em termos de estrada, essa foi a pior. Pra aprender a ser mais humilde, ela me derrubou umas tantas vezes, e tentou outras várias. Parecia que até a moto estava contra mim.
     Qualquer velocidade abaixo de 30km/h, a moto atolava. Acima dessa velocidade, qualquer encostada no ombro do facão onde rodava fazia a moto virar de uma vez e se lançar atropelando o que estivesse no caminho – arvores, arbustos, bichos, sem preconceito. Foram dois tombos na ida e dois na volta, todos devagar e sem consequências, e alguns arbustos arrancados pela raiz.
     Fui curtir as dunas e quando voltei até a moto havia desmaiado de cansaço, deitada debaixo de uma árvore curtindo a sombra.
     E as dunas, ah, as dunas! Que lugar mágico! Pena uma equipe de farofeiros atrapalhando por lá. Povo de agência... não respeita o ambiente, mais preocupado com a janta do que o lugar FODA em que estavam.
     Só de pensar na volta tive arrepios, mas consegui chegar. Tomei o rumo de Mateiros. Poucos quilometros à frente tinha a entrada da trilha para a Serra do Espírito Santo. Olhei, um arrepio correu a espinha, e o subconciente dizia baixinho “Deixa pra próxima”.
     Pouco depois chega Mateiros, que é a cidade mais feia do Jalapão, e a mais cara. Paguei feliz R$5,20 no litro de gasolina, só de imaginar o caminhão tanque passando onde passei, e que eu não ficaria sem combustível. Consegui uma pousada simples e aconchegante, a mais barata de Mateiros (R$60), mas não me lembro o nome. Do posto de gasolina da pra ver ela do outro lado da praça. Consegui sacar dinheiro no supermercado, um esquema parecido com máquina de cartão de crédito. Até fui dar uma olhada em artesanato, mas tudo muito caro, mais caro que fora do jalapão, e atendimento muito ruim. Terminei de ler o livro do Amyr... E amanhã pretendo seguir pra São Felix.
     Pela segunda vez na viagem, acordei antes do despertador, e o mais rápido possível estava na moto. O tempo, nublado e firme, prometia não judiar de quem vos escreve.
      Depois do sufoco no areial ontem, decidi evitar riscos desnecessários e visitar os pontos principais do deserto. Sempre temos que deixar um motivo pra voltar, certo?
     Logo na saída de Mateiros tem uma estradinha que vai pra vários fervedouros, de seis a dez quilômetros de areial pra chegar (são três se me lembro bem). Passei direto. Mais pra frente tinha a entrada pro frevedouro da Sissa.
     Era cedo ainda... ninguém por perto. Fui entrando e seguindo o caminho até chegar no fervedouro.      Que coisa diferente! É bonito, parece uma piscina, água perfeita... e areia entrando na cueca. Curti bem lá, mas tinha uma sensação estranha, não sei, não conseguia ficar em paz. Voltei e ainda ninguém nem na entrada.
     Na moto novamente, segui pra famosa, linda e maravilhosa cachoeira do Formiga. Acreditem quando digo que não existem palavras pra descrever essa cachoeira. Não tem nada a ver com a realidade. Foi o melhor banho de cachoeira da minha vida, eu garanto! Ali fiquei horas. Se não fosse tão cedo, acamparia por ali mesmo. Mas a cachoeira me deu uma injeção de energia e resolvi tocar.
     Parei depois em São Felix, mais bonito e organizado que Mateiros. A estrada entre as duas cidades é muito, muito ruim! Sofrência! Na verdade, me pareceu haver uma certa rixa entre as duas cidades (e na minha opnião, Mateiros sai perdendo). Era hora do almoço. Passei no fervedouro do Alecrim, lindo e deserto. Muito interessante, mas não queria encher a bunda de areia de novo. A cachoeira do formiga me satisfez.
      Voltei a moto, e pelo mais puro fogo no rabo, resolvi tocar. No final da tarde cheguei a Novo Acordo, por uma estrada deliciosa onde era possível andar a 100km/h tranquilamente na terra. Foram cento e quarenta quilômetros. Parei numa Padaria, verde de fome, fiz amizade com um caubói que me pagou um lanche, e, novamente, por puro fogo no rabo, resolvi tocar para Palmas.
      Da saída de Novo Acordo, até Palmas, tudo em baixo de chuva torrencial. Eu estava cansado, muito cansado. Rodei e encontrei uma pousada estilo americano, Milani. Um lixo de pousada, a pior da viagem, extremamente fedida. Mas o cansaço não me deixava procurar outra. Apaguei, e sonhei com os Andes. Será?

O começo do jalapão pra mim, primeiro trecho sem asfalto, perto de Ponte Alta

O rio que corta o Jalapão. Lá na entrada do parque a gente chega nele novamente.

Morro da cruz


Brincando na estrada antes da chuva chegar


Trilha do nada ao lugar nenhum

Pedra furada, moradia das araras

Plano, tudo plano.



Seguindo as pistas, patinhas de onça no caminho.

Seguindo as pegadas da onça




Caminho para o rio soninho e cachoeira Véu de noiva





Almoço no deserto




A champs elyseés selvagem


Brincando na areia



Cava cava cava! Unstopabble!

Sussuapara, uma outra dimensão!



Um dos muitos areões




Cachoeira da velha

Praia do rio soninho

E lá se foi o farol de milha







Estrada das dunas





Dorminhoca

Dorminhoca Pt2



A água da cachoeira do formiga na estrada

Perto do Fervedouro do alecrim


Fervedouro do Alecrim

Rodovia Jalapão - é como estar em um rally


Bom, essa era a atração pricipal da viagem, até então. Agora é subir até a chapada das mesas e decidir se volto ou se vou ao leste.

Logo virá a parte 4! 

Até mais!

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